Gadgets
Mais uma noite, mais uma ida ao Fórum da Maia. Desta vez para ver Gadgets, de um grupo australiano.
A maior parte das peças de teatro que cá têm aparecido tem orçamentos bastante reduzidos - os actores são poucos e o cenário é quase nenhum. Ontem, em vez de gastarem o dinheiro nessas coisas, o grupo preferiu dar-nos um espectáculo em que a aposta eram os efeitos sonoros e visuais.
Grosso modo o trio era composto por 2 músicos (um na bateria e outro no orgão) e aquele que eu descreveria como um palhaço malabarista que não teve sucesso no circo e, por isso, decidiu criar um número para mostrar as suas habilidades. Nada de novo em ver uns números de malabarismo com maças, bolas ou mesmo fogo. Nota alta para os músicos que acompanhavam tudo com os devidos efeitos sonoros.
Os pontos altos da noite (e que justificamo nome ao espectáculo) foram dois: a apresentação do cão Eric e um espectáculo de música tecnológica.
O cão Eric é um cão robot. Começa por aparecer projectado num ecrão gigante, apresentando-se como um Deus que vem destruir a humanidade por causa do mal que faz ao planeta. Quando finalmente aparece revela-se um cachorrinho montado em cima de um daqueles carritos telecomandados. Mas um cachorrito cheio de humor. O cão era telecomandado a partir dos bastidores pelo malabarista, e até tinha uma certa destreza de movimentos. Para além de se passear pelo palco a boca também mexia à medida que falava. Acho que só faltava mesmo o movimento dos olhos para dar uns efeitos ainda mais engraçados.
No final do espectáculo, o malabarista apresentou mais um número de malabarismo mas diferente do que alguma vez tinha visto: as três bolas brilhavam no escuro; ele tinha vestido duas braçadeiras com sensores - de cada vez que uma das bolas tocava num dos sensores produzia um som; e finalmente um pedal activava um jogo de lasers e fazia mudar o som. Portanto, só com as 3 bolas, e a coberto de um número de malabarismo nocturno, deu-nos um espectáculo de luz e som. Parecia que estávamos numa discoteca a ouvir música techno.
Não foi seguramente uma peça de teatro e também não foi o melhor espectáculo do mundo. Mas não deixou de ser uma noite bem passada.
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Os chapéus do Chapitô
Ontem foi mais uma noite de teatro. Desta vez a peça Drákula, representada pelo Chapitô. Eu acho que já tinha visto outras peças deles mas nada me preparou para o que fui ver.
Entrámos na sala e já estavam os actores em palco. Por lá ficaram, a vaguear durante os mais de 15 minutos que o público levou a sentar-se. No palco viam-se uma série de caixotes, malas e malões e vários pequenos adereços. A impressão geral era de um palco meio desarrumado, uns actores meio esfarrapados e que até nem ia ser nada de especial. No entanto…
Os actores eram 3. A peça tinha pelo menos duas dúzias de personagens e outros tantos figurantes, todos desempenhados sempre pelos mesmos 3 actores. A mudança era feita sobretudo pela troca de chapéus (engraçado como um chapéu diz tanto sobre o perfil de um personagem). Não sei de onde vem o nome Chapitô mas depois desta peça não me admirava que fosse dos chapéus
O que é mais engraçado é que, apesar de serem apenas 3 actores, havia várias cenas em que estavam 4 ou 5 personagens em palco ao mesmo tempo. Só por aí já dá para começar a imaginar a salganhada que não era e a quantidade de situações cómicas que advêm de alguém ter que chamar por ele próprio ou de andarem a atirar os chapéus de uns para os outros.
Para além disso, percebi porque não havia grande cenário. Havia uma série de cenas no castelo do conde Drákula, cenas em Londres, cenas no barco, comboio, porto, etc… todo o cenário que era preciso era feito movendo os tais caixotes de um lado para o outro. E o movimento aparecia como por magia. A ondulação do barco era feita pelos próprios actores; a viagem de carruagem (uma série de caixotes empilhados uns em cima dos outros) foi das cenas mais movimentadas da peça, sobretudo quando os cavalos disparam e o desgraçado do cocheiro faz um esforço para não cair ao chão, seguro apenas pelas rédeas (não tenho palavras para descrever - mas uma sala cheia de público imaginou claramente o cavalo desenfreado e a carruagem aos saltos - porque eles conseguiram fazer com que os caixotes andassem efectivamente aos saltos!). Outra cena particularmente bem conseguida foi quando o cocheiro da morte os leva até ao castelo - até me deu arrepios…
Não era à toa que a sala estava esgotada, a encenação estava mesmo muito boa. Seja lá como for, o teatro português está bem e recomenda-se. Vão ao teatro!
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E ao terceiro dia… Elliot
Mais um espectáculo de um homem só. Ou seja, mais um espectáculo em que o público foi uma parte importantíssima do espectáculo.
Elliot também é belga e actua sozinho, mas o tipo de espectáculo é bastante diferente do de Joseph Collard (do qual gostei um pouco mais, mas também foi mais ao encontro do meu lado sonhador, provavelmente). Ontem tivemos direito a uma representação muito mais gráfica, cheia de adereços… mas também muito pontuada com caretas e gestos cheios de expressão. A tal ponto que os miúdos (e havia muitas crianças entre o público) adoraram à mesma, apesar de ele praticamente só ter falado em inglês.
Em palco estiveram o Dr. Jones, médico maluco; um instrutor de patinagem muito fashion; um praticante de artes marciais chanfrado; a maior estrela de rock de todos os tempos; e um stripper.
A parte mais impressionante foi, sem dúvida, ver o auditório do fórum transformado numa autêntica plateia de concerto rock com toda a gente aos gritos e aos saltos enquanto Elliot fazia palhaçadas com a sua guitarra eléctrica. Quer dizer, a mais impressionante para mim, as senhoras provavelmente preferiram o segmento do strip-tease. Sobretudo porque ao longo do espectáculo ele foi ficando cada vez mais suado e nesta altura já tinha mesmo aquele aspecto de quem tem o corpo cheio de óleo…
Como disse, não foi até agora o meu preferido mas quase que lá chegou. O aplauso final mostrou que outros pensaram o mesmo que eu (não foi fraco, muito pelo contrário; apenas não demorou imenso tempo). Seja como for, foi sem dúvida a peça que teve maior participação por parte do público (the Maia people
) o que contribui sempre para sairmos de lá muito satisfeitos, com a certeza de ter assistido a um excelente espectáculo. E com este embalo, e embora tenha a certeza de que vá ser uma peça bem diferente e mais calma, já fui comprando o bilhete para 2ª feira ![]()
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O poder da imaginação
Pelos vistos durante esta semana vou virar crítico de teatro
Hoje fui ver a peça ZicZag de Joseph Collard. Este senhor é belga e um excelente mimo.
O espectáculo começou com uma entrada triunfal, que qualquer fã da Guerra das Estrelas iria adorar. A peça basicamente descreve a vida de um mimo:
- as influências da sua família (que eram todos mimos, desde o pai, a mãe, o avô, o bisavô… só o trisavô é que era informático :-P)
- as aulas com prestigiados mestres por essa Europa fora (aqui ele fez o papel de mestre e o público de alunos)
- o primeiro espectáculo e por aí fora
Zic Zag
Ao contrário de muitos mimos este não é mudo. Mas a utilização de sons resume-se ao mínimo indispensável para contar a história, para interagir com o público ou para fazer os efeitos sonoros. Tudo o resto se resume à utilização de um reportório infindável de gestos, movimentos e expressões faciais. Tomara muita gente exprimir-se por palavras tão bem como ele só com o olhar.
A interacção com o público foi constante: as aulas que deu, pondo uma plateia completa a fazer gestos de mimo (a sala parecia esgotada, portanto imaginem mais de 700 pessoas de mãos no ar a tactear uma parede de vidro imaginária!); a criação de personagens da sua história que eram “pescadas” do público; a criação de ambientes provocados pelo público quando fazia os gestos ou os sons que se proporcionavam na altura, contribuindo para engrandecer ainda mais o espectáculo.
Houve uma situação particularmente caricata: a dada altura, estava ele a explicar (sempre por gestos) como as pessoas o aplaudiram imenso no primeiro espectáculo. De cada vez que o público (nós) tentava replicar a situação ele ficava descontente, como se fôssemos muito fraquinhos e pedia cada vez mais. Na iteração final começou mesmo a fazer os gestos de quem se despe e atira as roupas para o palco, em plena euforia (começou por simular que se descalçava e atirava os sapatos para o palco; depois as calças, camisola; enfatizou repetidamente o gesto das senhoras tirarem o soutien e atirarem também). Nisto, quando estávamos novamente a tentar fazer uma ovação ainda maior que as anteriores, alguém atira um sapato para o palco. Tudo pára… ele pede (sempre por gestos) que, já agora, atirem o segundo - lá foi. Pega nos dois sapatos, chega-se à beira do palco e entrega-os à senhora, dizendo com um sorriso “é mimo”, como quem diz: “é só a fingir, não é preciso fazer as coisas mesmo a sério, bastam os gestos e imaginação”.
E foi demonstrando o poder da imaginação que o espectáculo terminou. Numa sequência ininterrupta em que ele se ia metamorfoseando, cumprimentámos um limpador de vidros; fomos ouvir uma orquestra, com maestro, violino e contrabaixo; aturámos um político; tivemos pena do mendigo; imaginámos as bolas do malabarista; voámos de avião a hélice; fomos à lua e voltámos. Em cinco minutos apenas, e com a ajuda de um mimo, 700 pessoas decobriram quão longe nos pode levar o poder da imaginação…
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Começou o teatro!
A semana de Teatro Cómico da Maia começou a noite passada. E começou da melhor forma
Comecei a ficar bem impressionado mesmo antes de lá chegar. Aproveitei o facto de ter um autocarro à porta de casa que passa junto ao Fórum da Maia e lá fui eu. Pelo caminho iam entrando pessoas que nitidamente se dirigiam para lá também. Gosto de ver as pessoas a usar os transportes públicos e, àquela hora, realmente não há muita razão para não os usar, a viagem foi sempre a abrir.
Depois do bilhete comprado, perguntei na bilheteira: “Se eu só viesse ver mais um espectáculo esta semana, qual é que me aconselhava?”. Ele olhou para o programa e respondeu - “O de Domingo. Se só vier ver mais um esta semana, digo-lhe para vir Domingo… mas para a semana há mais para ver ;-)”. Ri-me e segui.
A espera da minha irmã foi facilitada pelo facto de entretanto ter começado o espectáculo de rua. Duas palhaças (daquelas que não têm nariz vermelho nem a cara pintada, mas fazem malabarismos e palhaçadas na mesma), uma italiana e outra espanhola, encantaram um público que se instalou no pequeno anfiteatro ao ar livre, do lado de fora do fórum. A interacção com o público é o forte deste tipo de espectáculos e aqui também não faltou -algumas pessoas foram chamadas ao palco a participar e uma miudita teve direito a quase meia hora de fama. O único defeito eram os degraus do anfiteatro, onde as pessoas estavam sentadas, estarem completamente gelados. Aliás, as actrizes estavam com pouco mais que uma camisa de dormir, como não congelaram foi um milagre. As noites de Outono ou são chuvosas ou frias e como não se via um vestígio de núvem no céu…

Pranto de Maria Parda
Às 22h30 o espectáculo principal finalmente começou. Fomos presenteados por uma belíssima actuação da Maria do Céu Guerra, no papel da personagem Maria Parda, uma bêbeda de longa data que corre Lisboa de lés a lés à procura de quem lhe dê vinho e, no fim, acaba a escrever o seu testamento. Inicialmente achei a peça um pouco dramática de mais para este tipo de festival, mas a segunda parte, pontuada por uma série de notas de rodapé, deu lugar a várias gargalhadas. Mas a melhor parte foi o que veio a seguir: no fim da peça, a Maria do Céu ficou lá, a falar connosco. Do palco foi respondendo às perguntas que o público lhe colocava. Falou-se de tudo, desde o estado do teatro em Portugal, à carreira da Maria do Céu, passando pelas telenovels, televisão, cinema, enfim de tudo um pouco. E aquela mulher sabe cativar um público, mesmo não estando a representar - havia várias pessoas completamente deleitadas a ouvi-la falar. A peça deve ter acabado pelas 23h45, saímos de lá já passava de 00h30!
Bem, estive aqui a olhar para o programa a tentar decidir o que ainda quero ver este ano. A peça de Sábado parece interessante, na bilheteira recomendaram-me Domingo… acho que ainda vou mas é os dias todos desta vez
Bendita Câmara da Maia por estas iniciativas.
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