Elogio a Iracema
Iracema!
Tanta gente que tem pena
de enfim te ver partir…
Digo-lhes eu Iracema,
que não há porque ter pena
porque tinhas mesmo de ir.
Longe vai a grande guerra no meio da qual nasceste;
e os tempos de moçoila e os bailes que dançaste;
E bem longe fica a terra onde tanto ano viveste;
Eu sou bem novo Iracema,
e pouco mais sei desses tempos
Que aquilo que me disseste:
Que Penela era diferente
que tinha muito mais gente
e também muita alegria.
E dos miúdos descalços
por ruas cobertas de palha
numa grande correria.
E aquilo que cantavam
à noite em grande festa
tu e as tuas amigas.
E os namoros escondidos
e os piropos que os rapazes
mandavam às raparigas.
E o que conheço de Angola,
e das viagens de barco
para essa terra distante
sei-o porque para lá foste
deixaste cá quase nada
levaste tudo o restante.
Lá, os teus filhos criaste
mais amigos arranjaste
e construíste outra vida.
Uma vida que o destino,
quis que ficasse para trás
mas não que fosse esquecida.
Pois mesmo ao regressar
sem nada para atestar
o que ficou para trás,
trouxeste maneiras de ser,
memórias para contar
aos netos e muito mais.
E se hoje sou quem sou
certamente que o devo
a meu pai e a minha mãe.
Mas, Iracema, te digo,
não tenho a menor dúvida
devo-o a ti também.
E no meio das memórias
de todas aquelas coisas
que um dia passei contigo
Sei que sabes, Iracema,
que é impossível não vir
memória de um bailarico.
Pois já velhinha, em Penela,
Vivendo outra vez sozinha
retomada a tua vida,
Volta e meia te lembravas
e arrastavas toda a gente
trauteando uma cantiga.
E voltando a quem tem pena
por enfim te ver partir:
A esses digo, Iracema,
que não te lembrem com pena
mas recordem os motivos
porque os fizeste sorrir.
