Elogio a Iracema
Iracema!
Tanta gente que tem pena
de enfim te ver partir…
Digo-lhes eu Iracema,
que não há porque ter pena
porque tinhas mesmo de ir.
Longe vai a grande guerra no meio da qual nasceste;
e os tempos de moçoila e os bailes que dançaste;
E bem longe fica a terra onde tanto ano viveste;
Eu sou bem novo Iracema,
e pouco mais sei desses tempos
Que aquilo que me disseste:
Que Penela era diferente
que tinha muito mais gente
e também muita alegria.
E dos miúdos descalços
por ruas cobertas de palha
numa grande correria.
E aquilo que cantavam
à noite em grande festa
tu e as tuas amigas.
E os namoros escondidos
e os piropos que os rapazes
mandavam às raparigas.
E o que conheço de Angola,
e das viagens de barco
para essa terra distante
sei-o porque para lá foste
deixaste cá quase nada
levaste tudo o restante.
Lá, os teus filhos criaste
mais amigos arranjaste
e construíste outra vida.
Uma vida que o destino,
quis que ficasse para trás
mas não que fosse esquecida.
Pois mesmo ao regressar
sem nada para atestar
o que ficou para trás,
trouxeste maneiras de ser,
memórias para contar
aos netos e muito mais.
E se hoje sou quem sou
certamente que o devo
a meu pai e a minha mãe.
Mas, Iracema, te digo,
não tenho a menor dúvida
devo-o a ti também.
E no meio das memórias
de todas aquelas coisas
que um dia passei contigo
Sei que sabes, Iracema,
que é impossível não vir
memória de um bailarico.
Pois já velhinha, em Penela,
Vivendo outra vez sozinha
retomada a tua vida,
Volta e meia te lembravas
e arrastavas toda a gente
trauteando uma cantiga.
E voltando a quem tem pena
por enfim te ver partir:
A esses digo, Iracema,
que não te lembrem com pena
mas recordem os motivos
porque os fizeste sorrir.
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Ciência Viva
Uma mensagem rápida para chamar a atenção para a abertura das inscrições no Ciência Viva deste ano: http://www.cienciaviva.pt/veraocv/2009/
Do que vi ate agora, há varias actividades que me despertaram a atenção:
- fotografia digital da natureza (actividade com varias horas de duração!)
- observação de caracóis, à noite
- mais uma subida ao farol de Leça (a ver se desta não esta tanto vento)
- visita aos subterrâneos de Arca d’Agua (mais uma vez não consegui chegar a tempo das inscrições, estou em lista de espera… e as inscrições abriram hoje, que faria se tivesse sido há mais tempo!)
- Varias actividades à beira mar ou relacionadas com a astronomia.
Como já deu para perceber, a procura por algumas actividades é grande. Portanto, quem estiver interessado, trate de se inscrever ![]()
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Fugir da greve
Já há muito tempo que não escrevo neste espaço. Já há algum que ando para o retomar. Hoje até me tinha decidido a fazê-lo, mas nunca pensei que o motivo fosse ser este.
NOTA: antes de continuar, podem querer acompanhar a leitura deste post com o mapa do metro de Londres.
Como alguns saberão, estou a passar férias em Londres. Tinha tudo planeado, fiquei perto de Willesden Junction, apanho o metro para o centro todos os dias e pronto. Hoje de manhã, fui primeiro a King’s Cross levantar os bilhetes de comboio da minha próxima jornada. E, ao sair do metro, reparo num cartaz a anunciar greve dos maquinistas a partir de hoje, às 19h00. Ora que sorte, tinha logo que calhar na semana em que eu ando por cá. Pior! Só termina 6ª feira de manhã e eu já começo a ver o meu transporte até ao comboio muito mal parado (e ele parte às 8h00!)
Pois bem, não há de ser nada, penso eu. Vamos mas é primeiro tratar do dia de hoje e ver como as coisas correm. Pois bem, o dia de hoje acabou por ser passado quase exclusivamente no Zoo - ia até justamente escrever sobre isso mas fica para outra altura. O que é um facto é que às 16h30 eu já estava despachado. Pensei “Bom, vou até Baker Street que me lembro de ter visto por lá umas lojas de electrónica pois preciso de comprar um adaptador para tomada” (e entre 2 baterias de máquina fotográfica descarregadas, uma bateria de portátil com 20 minutos, um leitor de MP3 descarregado e um telemóvel a começar a dar sinal, fazia-me mesmo muita falta!). Se bem o pensei, melhor o fiz. Às 17h00 estava despachado e de volta ao metro, quando pensei “Ainda é cedo, não sei se vou conseguir transporte amanhã para a baixa, vou aproveitar e dar um saltinho até à TowerBridge, continuo depois pela Circle line e apanho a Bakerloo line para casa no Embankement e estou no metro às 18h00, mesmo a tempo de fugir à greve”. E lá fui eu todo lampeiro.
À saída de Tower Hill, vejo um aviso que informa os utentes do metro de que há um incêndio na estação seguinte e de que o serviço foi interrompido justamente no sentido que eu queria seguir depois. “Não há problema”, pensei, “volto depois em sentido contrário e apanho a Bakerloo novamente em Baker Street - ia apanhar era um metro bastante cheio. E lá continuei eu até à Ponte. Ao chegar à ponte lembrei-me de consultar o mapa do metro a ver que outras alternativas tinha. Nem de propósito, na margem Sul, passa a Jubilee line que tem justamente ligação com a Bakerloo e muito perto do seu início. Além disso, ao contrário do resto da cidade, em que nunca percebo direito para que lado é o Norte e o Sul, porque nunca se vê o Sol por trás das nuvens, ali tinha o rio mesmo ao lado, não havia dúvidas sobre a direcção a seguir.
Assim que decidi por esta ideia em prática apercebi-me de um fenómeno muito interessante - imaginem um dia em que toda a gente sai mais cedo do trabalho porque sabe que a partir das 18h00-18h30 deixa de haver transporte. Em que, ainda por cima, há um incêndio numa estação e toda a gente procura a estação mais próxima como alternativa. Resultado, formou-se um autêntico carreiro de pessoas, qual carreiro de formigas, que seguia desde a ponte até à estação. Assim não tem como enganar, não é? Se não fosse a pressa e o facto de ter enchido o cartão até à última foto no Zoo, ainda dava umas boas fotografias… ![]()
Pois lá cheguei eu, depois de muitas escadarias e túneis (não gosto nada deste metro), lá cheguei a um cais de embarque onde até já estava um metro parado - tão cheio de gente que as pessoas que acabavam de chegar (eu incluído) desistiram de entrar. Até porque nos placards avisava que o próximo metro era daí a um minuto. Portanto esperei, lá apanhei o metro seguinte e saí em Waterloo. Aí era ver quem mais corria para chegar à ligação seguinte. Pois, justamente quando estava a chegar ao último túnel, eram quase 18h00 (ainda dentro do limite que me tinha imposto, pensei eu) está uma funcionária a fechar o portão - “Não há mais metros nesta linha hoje”, diz ela. Havia 2 pessoas à minha frente, senti-me como se fosse numa grande correria e, de repente, me tivessem fechado a porta na cara. Uma senhora perguntou que alternativa tinha para ir não sei para onde. “E para Wilesden Junction?” pergunto eu. Ela responde-me com um sorriso (daqueles mesmo afáveis, de pessoas que estão a tentar ajudar, e que acalmam a mais desesperada das pessoas, ainda bem que ainda há pessoas assim) e pergunta-me pelo tipo de bilhete. Como tenho um passe semanal, ela diz-me que posso apanhar um comboio, é só subir à estação, mais acima. Lá vou eu, no meio da carneirada - chego à estação de comboio, um enorme placard, mais de uma dúzia de linhas, com todas as paragens de cada comboio. Procuro Wilesden Junction mas não vejo em nenhum… como já cheguei à conclusão que não vale a pena fazer este tipo de perguntas ao cidadão comum, procuro o posto de informações e venda de bilhetes e repito a pergunta. Responde-me o senhor (depois de eu lhe ter pedido para falar mais devagar, porque ele despejou os nomes como se eu fosse dali e tivesse obrigação de conhecer cada canto de Londres) que tinha duas hipóteses - ir por Clapham Junction e depois para Wilesden ou então por Euston. Aí lembrei-me de ter visto Euston no mapa e de saber que era o término de uma das linhas do Overground que passa justamente por Wiledden Junction! “Esse serve” - digo eu -”Mas qual é o comboio que tenho que apanhar para lá chegar?”. A “Northern line“, responde-me. Ora, eu que de manhã tinha justamente apanhado a “Northern” para chegar a King’s Cross (ainda só tinha sido nessa manhã?) fiz imediatamente a ligação com as linhas de metro… e ia-me a preparar para retorquir que já não havia metro, quando me lembrei que só a Bakerloo tinha fechado, por enquanto. Agradeci, e lá desci as escada, desta vez literalmente a correr, a ver se ainda chegava a tempo, antes que essa linha fechasse também. Para minha grande alegria (e das centenas de pessoas que ali estavam à espera no cais de embarque), chegou um metro, quase vazio. Meti-me nele, saí em Euston, corri para o Overground e lá fiz a viagem normalmente até Wilesden Junction. Nos 200m que faço até chegar a casa lá vinha alguém ao telemóvel, a dizer num português do Brasil - “Já fecharam a Bakerloo? E agora, como é que eu faço?”
Vão ser 3 dias muito intensos, os próximos, já estou mesmo a ver. Mas, pelo menos, já comecei a conhecer algumas das alternativas - olhando agora para o mapa, apanhar o Overground daqui até Clapham Junction e depois meter-me num comboio, até que é uma boa forma de chegar daqui até à baixa, por exemplo. É que começo a achar que nunca mais ponho pés naqueles túneis tenebrosos do metro - afinal há males que vêm por bem
Mas a experiência valeu, sobretudo, pela possibilidade de me tornar mais uma das muitas formiguinhas de Londres - afinal, aquilo que eu mais gosto, quando vou conhecer uma nova cidade, é perceber um pouco como ela funciona e integrar-me no seu dia a dia.
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